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Era Uma Vez…

…naquele reino bem distante no tempo, o esporte nacional era o insulto. No dia a dia entre o clero, nobreza, camponeses e guerreiros, era exercida a arte da afronta. Havia até o Torneio Real, disputado sempre no aniversário do Rei Labéu, com direito a um título de sir para o vencedor. Só que há 15 anos ninguém conseguia derrotar o campeão Vitupério, que assim garantia sua renda anual de 15 mil dobrões além da hospedagem e outras mordomias na corte.

Até que chegou aos ouvidos do Rei que em Diatribe - uma das aldeias mais distantes - havia um camponês que perdia os amigos, mas não a piada ultrajante.  Label então mandou um mensageiro para procurar o rapaz e inscrevê-lo para  Torneio.

Lá se foi Baldão, durante o caminho tedioso, íngreme e lento pelas esburacadas estradas do reino, ofendendo o cocheiro de tempos em tempos para matar o tédio:

- Eh! É pra hoje?

Até que chegou em Diatribe. Baldão ordenou ao cocheiro que parasse, e então perguntou a um jovem aldeão, que sentado, observava a chegada da carruagem  com olhar blasé, enquanto picava um pedaço de fumo :

-Você aí, aldeão… para onde eu vou, ainda falta muito?

O rapaz parou de picar o fumo, e sem perder a altivez, devolveu a provocação:

-Depende…se vossa senhoria vai à Merda, já passou; se vai à Puta-Que-Pariu, é lá na frente; agora, se vossa mercê Vai-Tomá-No-Cú, pode descer que é aqui mesmo!

Sob gargalhadas gerais, Baldão corou, mas caiu a ficha: só podia ser este o Insultador Sensação da aldeia.

_ Como te chamas, aldeão?

-Eu não me chamo não… os outros é que me chamam de Picardia.

Era ele. Baldão se recompôs, então explicou toda a situação e fez o convite. Picardia topou, se despediu dos amigos e seguiu para a grande disputa.

Na capital, estava montado o grande cenário do torneio. Com lotação esgotada. O Rei Labéu e  sua esposa, a fogosa rainha Injuria, tomaram seus assentos. E Sua Majestade anunciou o início das disputas.

Quando viu Picardia, achou o rapaz meio abobalhado… e cochichou para Baldão:

-Tens certeza que este é a sensação que pode derrotar Vitupério?

-Sim Majestade. Ele é impressionante.

Labéu manteve o ceticismo, que até aumentou conforme Vitupério reduzia os desafiantes a pó. Até que chegou a vez de Picardia…

O aldeão tomou a posição indicada pelo árbitro. A platéia berrava o nome do ídolo :

“Vi-tu-pé-rio!Vi-tu-pé-rio!Vi-tu-pé-rio!”  - e Labéu achou que o pobre rapaz não daria nem pro início.

O árbitro explicou as regras a Picardia: ele ouviria o insulto e teria um minuto para a réplica. Se não conseguisse,  a partida se encerrava com a vitória do oponente. O árbitro então deu a voz para Vitupério. Ele pigarreou, sorriu - sua tática era enervar o adversário - e quando Picardia arriscou um gesto de impaciência, o campeão sapecou:

- Calma rapaz… vai tirar o pai da forca e a mãe da zona???

Os súditos na arquibancada comemoravam como um gol. Vibração geral. O rei Labéu olhou de esguelho para Baldão, como quem diz:”eu não avisei?”.

Baldão, que havia apostado 300 dobrões em Picardia, afundou a cabeça contra o peito, desconsolado… até que se fez silêncio, e antes do último grão de areia rolar pela ampulheta, todos ouviram a voz firme de Picardia:

-Eu não… pior é o senhor, que vai tirar a MÃE  da forca e o PAI da zona…

Vitupério, que estava de frente para a torcida, agradecendo, parou - empalideceu, virou para Picardia, tentou esboçar uma resposta mas… para espanto geral, rodopiou, levou a mão ao peito, caiu e beijou a lona.

-NOCAUTE FULMINANTE!  - anunciou o árbitro!!!

Baldão comemorava . Entusiasmado, o rei Labéu aplaudia Picardia,  carregado em triunfo pela multidão.

E a rainha Injuria ainda encontrou uma forma de deixar com o novo campeão a chave dos aposentos reais, com instruções claras de só ir lá depois da meia-noite, quando o rei Labéu estivesse dormindo profundamente…

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0 Comments on “Era Uma Vez…”

  1. #1 cris
    on Sep 21st, 2008 at 4:50 pm

    huahuahuahuah!

    foi a história mais edificante que eu li nos últimos tempos… hehehe

    vossa senhoria manda bem! :)

    [Reply]

  2. #2 Sbub
    on Sep 22nd, 2008 at 5:55 pm

    Então, este é o novo blog do Serbon…Bacana! O que me impressiona é sua capacidade de mudar o conteúdo do blog quando ele muda de nome e manter o cinismo.

    Essa história está particularmente foda, foda, foda. O mais massa é o grito da torcida Vi-tu-pé-rio! Vi-tu-pé-rio! É uma boa sugestão pra torcida brasileira no próximo jogo do escrete canarinho.

    [Reply]

  3. #3 Sbub
    on Sep 22nd, 2008 at 6:15 pm

    Serbon, comentando um post anterior, vazou a informação de que o Fantástico cobriu o evento mesmo, inclusive os momentos decisivos.

    Sandy se aproxima do noivo e, consternada, abre o jogo:

    - Família Lima, eu sei que esperamos há anos por esse momento, mas justo hoje eu…eu fiquei menstruada!

    - Não tem problema, querida. Hoje, vamos fazer amor platônico - Respondeu o tocador de violino.

    Sandy saiu feliz pela resposta cândida e certa de que fez a melhor escolha. Mas também em dúvida sobre o que ele queria dizer com isso. Como reza a cartilha da boa moça, foi esclarecer com sua mãe, o Xororó.

    - Mãe, o Família Lima disse que como estou mestruada, hoje a noite passaremos com amor platônico. O que é isso?

    - Olha, minha filha, eu não sei. Mas na dúvida é melhor você lavar bem o cu e as orelhas.

    (tum tum tshh)

    [Reply]

  4. #4 Marconi Leal
    on Sep 23rd, 2008 at 11:41 am

    A rainha deve ter se decepcionado. Dizem que Picardia na cama é uma comédia.

    [Reply]

  5. #5 Serbao
    on Sep 23rd, 2008 at 6:10 pm

    pessoal, ninguem vai deixar nenhum insulto nos comentários???? :’(

    [Reply]

  6. #6 Serbao
    on Sep 23rd, 2008 at 6:10 pm

    bem, Marconi, de alguma forma então alguém gozou naquela noite…

    [Reply]

  7. #7 Serbao
    on Sep 23rd, 2008 at 6:11 pm

    Sbub, parece que foi só no violino que o Lucas Lima passou a vara…

    [Reply]

  8. #8 Ramiro Conceição
    on Sep 25th, 2008 at 12:02 am

    Parabéns, Serbão. O texto está muito bem elaborado.

    Cada Vitupério tem a `pica ardida’ que merece! Principalmente a Injúria depois da meia-noite…

    [Reply]

  9. #9 gugala
    on Sep 25th, 2008 at 3:12 am

    De onde vc copiou este texto, serbao?

    [Reply]

  10. #10 Franciel
    on Sep 25th, 2008 at 12:36 pm

    Guga, acho que ele não copiou de Marconi.

    [Reply]

  11. #11 Serbao
    on Sep 25th, 2008 at 2:14 pm

    tudo bem, confesso: recebi o texto por e-mail e publiquei. errei nisso. nao sabia que o texto era do Marconi.
    mas tudo bem ,divulgo aqui o endereço do sr. Gugalayon: av. Jules Rimet, s/n, Vila Sonia, SP.

    [Reply]

  12. #12 gugala
    on Sep 25th, 2008 at 5:33 pm

    Pça Jules Rimet, por favor

    [Reply]

  13. #13 Crotti
    on Sep 27th, 2008 at 12:51 pm

    Que putaria !!!

    Abraços

    [Reply]

  14. #14 Ramiro Conceição
    on Sep 27th, 2008 at 4:22 pm

    Serbâo, hoje é sábado, então:

    A CONVERSÃO
    by Ramiro Conceição

    Daquela vez, senhoras e senhores,
    chegara a hora de um dos maiores,
    porque acabara de adentrar à tenda
    - dentre os batuques dos atabaques -
    aquele que compreendera claramente
    a boçalidade total da História humana.

    Por isso, em um ato meigo de Amor,
    Iemanjá o cobriu com um Manto Azul.
    Por isso, alegre, a Natureza o enfeitou
    com os Raios Cósmicos de Xangô,
    com as Matas Livres de Oxossi,
    com as Águas Doces de Oxum,
    com as Sete Cores de Oxumarê,
    com as Lanças Guerreiras de Ogum
    e com os Vulcões Abissais de Exu.

    Sim,
    senhoras e senhores, daquela vez,
    Fiódor Dostoiévski se transmudou,
    quando apareceu o Resplandecente
    ? Oxalá-Tupã-Obatalá-O-Sem-Nome ?
    Transfigurado ? no Filho do Homem.

    FILHOS DO SOL
    by Ramiro Conceição

    Lembra - se daquela vez
    em que inocentes caminhávamos livremente?
    Lembra-se do quanto — nós — brincávamos?
    Lembra-se da felicidade com que brilhávamos?
    Lembra-se daquela vez em que brigamos?
    Lembra-se daquela vez em que voltamos?
    Lembra-se do cuidado com que nos olhávamos?
    Lembra-se daquela vez em que morremos?
    Do quanto choramos? Do quanto oramos?
    Lembra-se da última vez em que nos amamos?
    Pois é!
    Éramos, somos e seremos
    sempre ? os Filhos do Sol.

    TEMPO DOS SERES
    by Ramiro Conceição

    Além das flores, quem és?
    Sou as cores.
    Além das cores, quem foste?
    Fui amores.
    Além de amores, quem serás?
    Serei o que deste e dás.

    Além das flores, quem eras?
    Era as cores.
    Além das cores, quem foras?
    Fora amores.
    Além de amores, quem serias?
    Seria o que deras e davas.

    Além das flores, quem sejas?
    Seja as cores.
    Além das cores, quem fosses?
    Fosse amores.
    Além de amores, quem fores?
    For aquilo que desses e dês.

    Além das flores — sê.
    Além das cores: seres
    sendo, sido, além dos pecados idos.

    TEMPESTADES
    by Ramiro Conceição

    Há seres
    que são
    tempestades
    a lavar os
    ladrilhos
    das Cidades.

    [Reply]

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