- Não existem verdades absolutas. E este aforismo em si não é uma verdade absoluta.
- Eu sou do tempo em que “Status” era só uma revista de mulher pelada com pretensões literárias.
- O pior de tudo é que nem me chamo Raimundo; portanto além de não ter solução, nem rima eu tenho.
O Livro dos Aforismos - Edição Fim do Verão
Literatura Moderna - Metamorfose Now Redux
Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa começou a gritar para a esposa:
-Stella!!!! Steeeellaaaaaaaaa!!!
Ninotchka preparava o café da manhã na cozinha, e indignada, se dirigiu ao quarto do casal, pensando alto:
“Este imprestável Gregor ! Chegou bêbado ontem à noite e agora troca meu nome pelo de uma vagabunda qualquer com quem se deit…”
Não completou o raciocínio. Ao chegar no quarto, deu pelo marido na cama transformado em…. Marlon Brando!
-Gregor! - gritou, deixando-se cair ao chão.
-Que me aconteceu ? - pensou Samsa.
Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares.
Samsa foi ao banheiro, e, no espelho, estava a cara de Stanley Kowalski!!!!
Refeito do susto, o casal procurava entender o que aconteceu.
-Será que foi algo que você comeu?
-Não sei, Ninotchka… apenas acordei e estava assim…
-Bem - concluiu Ninotchka, agora já bastante entusiasmada com o incidente - como está fica!!!
O passeio pela aldeia foi … bizarro.
Os vizinhos no início suspeitavam que Ninotchka teria arrumado um amante.
Mas Samsa/Brando convidou todos ao bar, com rodada por conta dele, para comemorar a nova aparência. E todos se convenceram.
Ou melhor, quase todos.
-Samsa, seu cunhado…
-O que tem ele?
-Disse que você é um impostor.
Samsa então, em segundos, ficou mais gordo, o cabelo embranqueceu, e as bochechas estufaram:
-”I’m gonna make him an offer he can’t refuse”.
O cunhado riu e se rendeu:
-”I believe in America!”
O bar veio abaixo. Mais rodadas de bebida para todos, e Samsa/Brando até improvisou um trocadilho, apontando para o garçom:
-- “I coulda be a ‘bartender’…”
A gargalhada foi geral. E não foi de se espantar quando ele se trancou no quarto sob aprovação de Ninotchka, com oito das mulheres mais apetitosas da aldeia, e levando dois quilos de manteiga…
No dia seguinte, Ninotchka preparava o café da manhã - mais caprichado - quando ouviu um grito desumano vindo do quarto.
Assustada, correu e empalideceu com a cena.
No quarto em penumbra, um ser ocupava a cama com todo o ventre rombudo, gigantesco e disforme.
Ela fez menção de acender a luz, mas o ser, com a voz de Gregor Samsa, protestou:
-Se acender a luz eu saio do set e abandono o papel!!!
O horror, o horror…
Tuitar este postO País do Tapetão
Alguns dias depois da surpreendente decisão lá no Maranhão, de dar o mandato ganho nas urnas pelo Jackson Lago pra filha do Ribamar, vem mais uma virada de mesa, desta vez no futebol.
Parmera, Santos, Cruzeiro e compania bella querem o reconhecimento de títulos como o Robertão e a Taça Brasil como NACIONAIS. Se a CBF o fizer, a Porcada e o Peixe seriam os maiores vencedores com 8 títulos cada um ,superando, na canetada, o glorioso e legítimo hexa conquistado nos campos pelo São Paulo.
Piada, né? Campeonato Brasileiro, organizado como tal, começou em 1971. Antes a Taça Brasil, por exemplo, só era disputada pelos campeões estaduais, e indicava os representantes para Libertadores. Seria um protótipo da Copa do Brasil, portanto. Com um agravante: clubes do eixo Rio-SP só entravam nas fases finais…
E o Robertão era um embrião do atual campeonato Brasileiro, só que foi disputado simultaneamente à Taça Brasil em duas edições. Depois teve mais duas, foi extinto e tivemos o Campeonato Brasileiro.
Isso é tapetão, e dos bons. Mas entendo o interesse de Cruzeiro, Botafogo, Bahia e Fluminense, que nessa tacada, aumentariam em 100% seus títulos brasileiros…passando de 1 para 2!!!
E o que esperar de certos times que querem ser campeões mundiais por fax???
Tuitar este postQue Time é Teu?
Mentira que o São Paulo iria entrar de luto hoje, pela Libertadores.
Porque o time da Clodovéia era outro:
Tuitar este postÓleo Sobre Tela
Acho estranho quando a maioria das pessoas se refere à infância como um período dourado, de maravilhosas recordações.
Talvez porque, no meu caso, a infância tenha sido uma época de desejos frustrados, muitos sobressaltos e histórias obscuras.
Uma delas só foi ficar mais clara para mim quando fiquei adulto. Meu pai, depois de muitas brigas diárias com minha mãe, largou tudo e foi passar uma temporada em Manaus, administrando um dos hotéis da rede em que trabalhava.
O dinheiro era curto, sobrava pouco do salário dele para enviar para casa; a solução foi pegar alguns dos quartos da casa grande em que vivíamos, e alugar para pensionistas. Eu e meus irmãos então nos amontoamos com minha mãe num dos cômodos.
Ela, reconheço, cumpriu bem a tarefa; cuidava da comida, e contratou até uma senhora para ajudar na limpeza. sempre cobrava adiantado o aluguel mensal dos hóspedes - escolhidos a dedo, chegavam por indicação e passavam por uma triagem que minha mãe fazia… entre os critérios, minha mãe olhava, fazia algumas perguntas e enfim acolhia - ou negava a vaga.
Alguns ficaram um bom tempo conosco - o senhor Gunther, suíço radicado no Brasil há muitos anos, e que havia recém-enviuvado. Veio para a pensão depois de vender a casa , para não ficar sozinho. Como não tinha filhos, nos ‘adotou’, trazendo balas, revistas e doces para nós quando voltava para casa; o Laerte, mineiro baixinho, carismático, sempre brincalhão e divertido, e que anos depois voltaria para Belo Horizonte, onde casaria e abriria um restaurante em que almoço com desconto até hoje, quando passo por lá; e tinha “O Cara”.
Não lembro o nome dele, mesmo porque ele passou rápido pela pensão e por nossas vidas. Mas lembro da figura: um rapaz, ainda, louro, alto, cabelos compridos e barba. E os olhos claros, tristes, de quem sabia ter um destino trágico e inevitável. Entre meus irmãos, ele era o Pintor; e assim ficou.
Ele chegou no meio do ano de 1972. O país se preparava para comemorar o “Sesquicentenário da Independência”, uma efeméride meio forçada pelo governo para levantar o ufanismo da população. Deixou seis meses pagos com antecedência, e trouxe a bagagem: uma mala grande pras roupas, livros, e um cavalete de pintura.
Logo imprimiu a rotina na pensão: ligava o radinho de pilha no começo da tarde, depois do almoço; e enquanto os sons de Led Zeppelin, Elton John, Novos Baianos, Yes tomavam o ambiente, deixava a porta entreaberta para pintar.
Eu ficava ali, rodeando, embevecido; até que um dia ele me convidou para entrar no quarto. Meio ressabiado, meio tímido, entrei. Passei os olhos nos livros jogados na cama, outros sobre o criado-mudo; e as telas, cinco telas no chão, já finalizadas.
Uma era um rosto disforme, em cores escuras; observei que não sabia se era homem ou animal.
-É um Minotauro - ele respondeu, enquanto pincelava na tela que estava no cavalete.
-Não é um touro?
-Exatamente isso o que você disse.
-Mas parece homem também.
-É também um cara - devolveu ele - E é um mito. Leia isso - e me emprestou um livro sobre mitologia.
Naquela noite, folheei o livro, na cama; mergulhei nas lendas mitológicas gregas, nos mitos da criação e dos heróis. E agradeci muito ao Pintor por isso. Mas não tive tempo de fazê-lo pessoalmente.
Ele ficou três dias sem aparecer na pensão, e quando retornou, veio acompanhado de outros dois homens de paletó, muito sérios. Ele deu um sorriso amarelo ao entrar em casa, falou rapidamente com minha mãe, e os homens de paletó entraram com ele, no quarto, pegaram alguns papéis que ele guardava na gaveta, e saíram em menos de dez minutos.
Fiquei olhando pela janela eles entrando numa vemaguete escura, com mais dois homens dentro, de semblante fechado. Ele ficou no banco dos passageiros, entre os dois homens de paletó; e a última imagem que tenho dele é essa, da vemaguete dobrando a esquina e desaparecendo no meio do trânsito.
O Pintor nunca mais apareceu; o quarto ficou reservado até findarem os seis meses que ele deixou pagos. Nesse período, vieram duas mulheres - a mãe e a irma dele. Entraram, com um ar preocupado; aceitaram o café da minha mãe, e ficaram algum tempo no quarto dele, com a porta fechada. Julguei ouvir soluços, depois elas saíram, carregando os pertences dele e agradecendo a minha mãe pela acolhida.
Só deixaram a tela inacabada no cavalete.
O quarto jamais foi alugado para outro; o ano acabou, chegou 1973 e com ele meu pai voltou. Conversou muito com minha mãe, e resolvemos mudar para outra casa, a família reunida de novo. Meu pai estava eufórico, minha mãe mais contida; os hóspedes pouco a pouco se despediam, levando malas, beijos e um pouco do coração da gente.
E chegou também nosso dia. O caminhão de mudanças encostou, os carregadores levaram todos nossos pacotes, móveis, louças e malas.
Consegui finalmente entrar no quarto do Pintor, vazio; ou melhor, quase vazio. A tela inacabada continuava ali, e pude vê-la com calma.
Era um óleo sobre tela, e retratava um barco, isolado, no meio do mar bem azul. Alguns traços esparsos, e faltavam ainda contornos e cores. Mas as pinceladas vigorosas ficaram marcadas na minha memória até hoje.
Talvez por isso mesmo as duas mulheres que foram em casa naquela tarde não quiseram levar a tela; o barco parecia sinalizar um grito, um pedido de ajuda a alguém em algum porto indefinido.
E por isso mesmo também nós o deixamos para trás, enquanto íamos para a casa nova.
PS - texto em “homenagem” à Folha de São Paulo, que classificou de ‘ditabranda’ aquele período iniciado com a ‘Redentora’ e finalizado com a eleição do Tancredo ‘Never’…
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