Manuel Bocage fazia poemas, mas ganhava a vida mesmo era com seu show de stand-up comedy.
E, como todo bom lisboeta, sacaneava os alentejanos - nas piadas contadas em Portugal, é o alentejano quem faz o papel do português nas nossas anedotas.
Naquela noite, entrou no clube e já começou a emendar uma na outra:
“-Boa noite, senhoras e senhores…
Sabem como é que um alentejano mata uma minhoca?
Enterra-a.
Sabem como é que um alentejano mata um pássaro? Atira-o de um precipício.
Sabem como é que um alentejano mata um peixe? Afoga-o.”
(som no prato - prrix!)
Ninguém riu. “Homessa” - pensou consigo mesmo - “devem ter julgado as anedotas pueris”…
E prosseguiu:
“- Estava-se a fazer um concurso ao alvo com 3 concorrentes. Um Alentejano, um Suíço e um Inglês.
Coloca-se uma maçã em cima da cabeça de um homem e o Inglês atira a seta.
Depois de acertar diz:
- I’m Robin Hood.
O Suíço atira a sua seta espetando-a em cima da do Inglês e diz:
- I’m Guilherme Tell.
O Alentejano atira a seta acertando inevitavelmente na cabeça do homem, olha para o público e diz:
- I’m sorry.”
(som dos pratos - prrrix!)
Nenhuma reação da plateia. “Terei muito trabalho esta noite” -concluiu Bocage - “vou engrossar”…
“- Um alentejano é desafiado por um lisboeta :
- Como eu tenho mais cultura, você faz-me uma pergunta sobre um assunto qualquer e se eu não souber responder, dou-lhe 10 contos. A seguir faço-lhe eu uma pergunta e se não souber a resposta, dá-me só mil escudos.
Concorda?
- Vamos a isso. - respondeu o alentejano confiante.
- Então eu faço-lhe a primeira pergunta.
Diga-me o nome da pessoa que escreveu “Os Lusíadas”, aquele poeta só com um olho, que dignificou Portugal?
O alentejano começa a pensar e passados alguns instantes diz:
- Não sei. Êu não sei lêri!
- A resposta era Luís de Camões. Dê-me os mil escudos e faça-me uma pergunta qualquer.
- Tomi. Bem, qual é o animali que se o encostar a um morro sobe-o com quatro patas e desce-o com cinco patas?
- Olhe, essa nem eu sei. - respondeu o Lisboeta.
- Então passe para cá os 10 contos.
- Tome. Mas agora diga-me, que animal é esse?
- Também não sei. Tome lá mil escudos.”
(som do prato mais desanimado - prx)
Nada. Bocage tira o lenço do bolso para enxugar o suor frio que escorre pela testa.
Mas segue:
“- Um brutamontes apanha um alentejano e pergunta-lhe:
- És tu o Zé?
O alentejano, levado para a brincadeira responde:
- Sou!
O brutamontes desata a bater-lhe e a dizer…
- Nunca mais te metas com a minha Ana… tás a ouvir…?
O alentejano desata à gargalhada apesar de ter já um olho negro e várias feridas.
O brutamontes pergunta:
- Estás-te a rir de quê? Onde é que tá a piada?
- A piada és tu! Eu não me chamo Zé!”
O público levanta-se e cerca o palco, com cara de poucos amigos.
O baterista nos bastidores nem toca o prato, e sai de fininho.
Bocage tenta a cartada final:
- Pessoal, tenho mais anedotas fresquinhas sobre Alentejanos ! Vocês não gostam?
O grupo responde em uníssono:
- Antes de continuares, avisamos-te, somos Alentejanos !
Bocage pára, espantado. E lança um olhar de relance no night-club. Em cima do barzinho, uma faixa informa:
REUNIÃO ANUAL DOS PRATICANTES DE JIU-JITSU ALENTEJANOS.
Um calafrio percorre a espinha do poeta-humorista, que antes de sair em desabalada carreira, solta a última:
- Ora pois, está bem, eu conto as piadas bem devagar…







