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Literatura Moderna - Os Irmãos Karadepauzóv

(Atendendo a pedidos…)

Era um fim de tarde nos arredores de São Petersburgo. A banda Smerdiakóv Fez Merda, de blues, faz mais um ensaio antes do show em Moscou.

Na garagem da casa, os três irmãos , a saber : Ivan  Fiodórovitch Karadepauzóv,  o mais velho, guitarrista e vocalista, que escreve letras ácidas e niilistas; Aliócha Fiodórovitch Karadepauzóv, o baixista, tímido e religioso, que por conta do talento e carolice já fora convidado um sem número de vezes para integrar uma banda gospel ; e Dimitri Fiodórovitch Karadepauzóv, o baterista, de quem não podemos falar muita coisa.

Num canto, metida numa apertadíssima calça jeans e uma blusa com um decote generoso, recostada sobre o amplificador Marshall de Ivan, Catarina Ivanovna, groupie do conjunto, acompanhava  a enésima execução de “Sweet Home Chicago” dos irmãos…

Até que Grigori, o criado , chega apressado:

Meninos, vosso pai reclama do barulho…

- De novo? - pergunta um mal-humorado Ivan - esse filho da puta bebe até o talo e embaça no nosso som….

Nem completou a frase. O velho Fiódor Pavlovitch Karadepauzóv  irrompeu  furioso pela garagem e puxou os fios das tomadas:

- Baby ai donti uana gou??? Isso lá é música?? Pra isso me fizeram gastar meus rublos, subornando funcionários da alfândega para trazer instrumentos importados ? Chega de barulho, eu quero dormir e a vizinhança também!!! 

O velho Fiódor era um sujeito totalmente repulsivo. Barba por fazer , o nariz vermelho pela vodca barata entornada diariamente e aquele cheiro que não deixava dúvidas sobre a periodicidade de seus banhos.

Repulsão que chegava aos filhos. Ao ver o velho voltar para dentro da casa, Ivan disparou, entredentes:

- Velho nojento.

Aliócha ponderou:

-Depois do sermão ele dorme e podemos voltar a tocar.

-Sei não - interrompeu Smerdiakov, que assistia a tudo num canto, e estava com um dos fios dos amplificadores nas mãos - o véio Fiódor arrancou da tomada com tanta fúria que receio que a guitarra não possa ser ouvida nesta noite.

Todos se entreolharam, e Aliócha observou:

-Sempre assim. Ele sempre quebra algo, depois de encher a cara…quando isso vai acabar?

-Impossível - disse Ivan, com um longo suspiro - só se…

-Se o quê? - perguntou Catarina, empinando a bundinha e piscando os olhinhos…

-Só se … A GENTE MATAR ELE -  concluiu Ivan.

Silêncio na roda, só quebrado pelos roncos que Fiódor emitia do sofá da sala.  Dimitri se colocou numa posição estratégica na garagem,  suficiente pra ver Catarina Ivanovna pagando um peitinho enquanto todos pensavam na melhor forma de eliminar o patriarca da família.

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Literatura Moderna - A Divina Comédia

-Boa tarde, dona Vicenza. A Beatriz está?
-Entre seu Dante! Ela está no quarto, mas já vou chamar ela! BIÁÁÁÁ!!!!!
Beatriz está no MSN, quando a mãe entra no quarto e anuncia:
-Bia! O Dante taí.
-Já vou - responde Bia, com voz de enfado.
-Rapaz tão distinto, fala corretamente, escreve poesias! Partido assim você não vai achar tão fácil não- resmunga a mãe, enquanto Bia volta a teclar:Bia: ai, miguxa, adivinha quem xegou aki?
Paty:naum faço idéia
Bia:o Tio Sukita.
Paty:kkkkkkkkkkk
Bia:minha mae quer que eu desça…volto jah
Paty: ele não se toca? maior coroa
Bia:e fala iskisito, tudo em verso…. e só fala de ceu, inferno, moh carola!
ele tem 30, eu tenho 13 anos!
Paty: vc jah ficou com ele?
Bia:uma vez só, mas ele naum sabe bj direito, só baba :P
Paty:kkkkk ele é amigo do Virgilio, o “Pagão”, né?
Bia: outro maluco, que nem ele. põe folha de louro atrás da orelha … :D

kkkkkkkk

Lá embaixo, dona Vicenza faz sala ao pretendente:
-Um cafezinho, seu Dante?
-Com adoçante, por favor…

E ao tomar um gole:

-Oh! café! Precioso líquido
Da Arábia nascido, adotado nos trópicos
Riqueza primeira do paulista lívido
O mundo ganha em goles utópicos…

Dona Vicenza sorri, embevecida, enquanto Bia desce as escadas
com nítida má-vontade, passando o dedo displicente no corrimão
de madeira e mascando um chiclete.

 

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Literatura Moderna - Brokeback Mountain:Veredas

Brokeback Mountain: Veredas
nonada. gemidos que o senhor ouviu foram de homem se esfregando com homem não. Deus esteja.

penso muito é em Diadorim, que minha mulher não nos ouça. compadre meu Quelemén reprova meu pensar.

lá pros lados do Grotão, fomos pastorear ovelha. noite caía, frio gelava os ossos.
Diadorim me chama pra barraca.  barraca de Diadorim armada estava.
querer, no pensar, eu não queria, mas meu pensamento voava reto nele.

debrucei, parecia que ia catar água: e balançou minha cabaça. tinha um trem dentro, um trem de ferro.
-bota isso fora, Diadorim! gritei.
mas Diadorim continuou, no vaivém.

e depois, prosa era sempre com Diadorim; os outros peões olhavam, mas não falavam. falasse, ia ser na faca; sou lá homem de meias-verdades?

tempo passou, casei, Diadorim sumiu no mundo. e meu pensamento nele.
até que carta chegou, relatando o ocorrido: Diadorim se cravou com um Hermógenes, a risco de faca. sangue esguichou dos dois.

Diadorim tinha morrido, num somente.
pra esquecer Diadorim pensei até no pacto:
encruzilhada visitei, olhei pro céu, chamei Ele: o Bode-Preto, Coisa-Ruim,
Setestrelo, o Não-me-Diga, o Que-Não-Ri, o Morcegão, o Xú.

voz minha se estragasse, e nada.
até que apelei:
- aparece, ô baitôla fiho-de-rapariga!

enxofre estourou, e o Muito-Sério, o Senhor-das-Moscas apareceu:
-tu que leva cabeçada no céu da boca, seu Riobaldo Tatarana, e eu é que sou viadinho?

e mais não disse, sumiu na rua, no meio do redemunho.

e aqui acaba a história.
senhor sabe, viver é muito perigoso…

 

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Literatura Moderna: O Amor Que Não Ousa Dizer o Seu Nome

Era uma bela tarde de outono no Chelsea.
Lord Alfred, ou Bosie, como as más(e boas) línguas lhe chamavam, subiu a pequena
escadaria e bateu à porta da casa.
A governanta atendeu:
-Lord Douglas! Vou anunciá-lo aos patrões.

Enquanto a governanta se dirigia ao segundo andar do sobrado, Bosie tirava o sobretudo, o chapéu, as luvas, e, bem à vontade, se servia de um cálice de brandy.

-O casal Wilde deve descer em instantes- avisou a governanta - o senhor fique à vontade, como se
não pudesse ficar mais
- observou com censura, mirando o cálice cheio na mão de Bosie.

Bosie , com ar desafiador, pegou a garrafa e despejou mais brandy . Esperou a governanta se retirar e então, pé ante pé, subiu as escadas até chegar ao quarto do casal.

Encostou o ouvido na porta para ouvir o diálogo abafado :
-Oscar, tire meu espartilho.
“Damn God” pensou, enciumado. Era a voz de Constance, sua rival. Ela prosseguiu , arfante:
-Agora, Oscar, tire minha cinta-liga!

“Oh, não!” pensou Bosie,”ele jurou para mim que era apenas um casamento de fachada e…”

E Constance seguia:
-Bom menino! Oscar, tire minhas meias…
….
-Agora, minha roupa mais íntima…
-Isso, por fim, retire meu soutien!

“Céus!”- pensou Bosie -” vou invadir o quarto e pôr esta sirigaita no lugar dela….” … mas foi interrompido pelos berros de Constance:

-ÓTIMO, OSCAR! E NUNCA MAIS VISTA AS MINHAS ROUPAS!!!!

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Literatura Moderna - As Aventuras de Arthurzinho

-Arthurzinho, meu filho, largue esses poemas! Vá brincar um pouco na rua!!!!
Contrariado, o jovem poeta deixa os livros em cima da mesa e se encaminha  para a porta.
A mãe suspira aliviada : “esse menino precisa pegar um pouco de sol…”

Arthurzinho escreve menos poemas, mas começa a andar com um pessoal diferente…
e a chegar em casa com os olhos vermelhos e nariz fungando…

“Esse menino tá esquisito…” pensa a mãe, que de uma hora para outra começa a dar conta do sumiço de eletrodomésticos e  trocados deixados em cima da cômoda.

Um dia Arthurzinho some. Desesperada, dona Rambô percorre hospitais, registra BOs, vai aos necrotérios, acusa o pipoqueiro da escola de levar as crianças ao mau caminho… e nada.

Meses depois, quase tem um surto ao assistir no telejornal a prisão de uma quadrilha de traficantes de armas.
No meio, Arthurzinho, “o traficante Rambô, que respondeu ao interrogatório em versos de rap….”

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